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Um modelo que interpreta a mente: Brain-IT

2026-09-14
Juan Pablo VentosoPorPublicado porJuan Pablo Ventoso
Um modelo que interpreta a mente: Brain-IT
Cientistas criaram uma inteligência artificial capaz de converter pensamentos em imagens com grande precisão.



Uma nova inteligência artificial, desenvolvida por cientistas do Instituto Weizmann de Ciência em Israel, conseguiu reconstruir imagens a partir da atividade cerebral humana com um nível de precisão nunca antes alcançado. O sistema, chamado Brain-IT (Brain Interaction Transformer), analisa sinais obtidos por ressonância magnética funcional (fMRI) e gera imagens que se assemelham ao que uma pessoa estava observando, alcançando um novo avanço na interpretação das ondas cerebrais.


A descoberta foi desenvolvida por pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação e Matemática Aplicada do Instituto Weizmann, incluindo Roman Beliy, Amit Zalcher, Jonathan Kogman, Navve Wasserman e o Professor Michal Irani, um renomado especialista em visão computacional e inteligência artificial (arxiv.org). Embora a IA consiga ler a atividade cerebral e convertê-la em imagens, ela não é exatamente "leitura da mente", já que o Brain-IT não pode acessar livremente nenhum dos pensamentos de uma pessoa, mas sim interpretar padrões cerebrais associados a certas imagens.


O que é Brain-IT?

Brain-IT significa Brain Interaction Transformer, um modelo de inteligência artificial projetado para traduzir a atividade cerebral registrada usando fMRI em informações visuais. A ressonância magnética funcional possibilita observar mudanças no fluxo sanguíneo no cérebro, identificando quais regiões são ativadas enquanto a pessoa observa uma imagem. Esses sinais são divididos em pequenas unidades tridimensionais chamadas voxels cerebrais, que representam a atividade de pequenas áreas do tecido cerebral.


O desafio para os cientistas é enorme: uma imagem que vemos não é armazenada em uma única área do cérebro, mas distribuída em múltiplas regiões que processam cor, forma, movimento e significado. O Brain-IT busca resolver esse problema agrupando voxels com funções semelhantes e transformando-os em unidades de informação chamadas Brain Tokens. Essas unidades permitem que o modelo relacione padrões neurais a características visuais específicas.

Comparação entre as imagens vistas pelos participantes do estudo e as interpretações feitas pelo Brain-IT. Algumas coincidências são surpreendentes.

Comparação entre as imagens vistas pelos participantes do estudo e as interpretações feitas pelo Brain-IT. Algumas coincidências são surpreendentes.


O sistema combina dois ramos de processamento:



  • Um ramo semântico: interpreta o que a imagem representa (por exemplo, uma pessoa, animal, objeto ou paisagem).

  • Um ramo estrutural: reconstrói elementos visuais básicos como formas, distribuição espacial e cores.

Esses dados então alimentam modelos generativos semelhantes aos usados por inteligências artificiais que criam imagens, tornando possível produzir uma representação visual aproximada do que a pessoa estava vendo. O resultado não é uma fotografia exata tirada do cérebro, mas uma reconstrução gerada por IA baseada nas informações neurais disponíveis.


Nos últimos anos, vários grupos científicos avançaram na reconstrução de imagens cerebrais: um dos marcos mais conhecidos foi o uso de modelos de difusão para reconstruir imagens vistas por pessoas a partir de sinais de fMRI. Mas métodos anteriores tinham dificuldade em manter fielmente detalhes como composição, localização de objetos e características específicas da imagem original.


Segundo pesquisadores do Instituto Weizmann, o Brain-IT melhora esses resultados porque incorpora uma representação mais próxima da forma como o cérebro organiza a informação visual, permitindo reconstruções mais fiéis tanto no significado quanto na estrutura.

El equipo de investigadores que está llevando adelante el proyecto Brain-IT.

El equipo de investigadores que está llevando adelante el proyecto Brain-IT.


Será que ele realmente consegue ler mentes?

A resposta curta é: ainda não: o Brain-IT não funciona como leitor de pensamentos universal. Para treinar o sistema, os pesquisadores precisam de dados sobre a atividade cerebral de uma pessoa enquanto ela observa imagens. O modelo aprende a relação entre essas imagens e os sinais neurais daquele indivíduo. Além disso, se uma pessoa pensar em algo muito diferente das imagens usadas durante o treinamento, a reconstrução pode estar incorreta ou muito imprecisa.


A tecnologia também não nos permite conhecer segredos, memórias ou pensamentos privados sem a cooperação do indivíduo. A pessoa deve participar ativamente do experimento e permanecer dentro de uma máquina de ressonância magnética. Mas, apesar dessas limitações, o potencial médico é enorme: sistemas como o Brain-IT podem contribuir no futuro para o desenvolvimento de interfaces cérebro-computador para pessoas que perderam a capacidade de se comunicar.


Pacientes com doenças neurológicas graves, AVCs ou lesões que afetam a fala podem se beneficiar de tecnologias capazes de transformar sinais cerebrais em ações ou mensagens. A combinação de inteligência artificial e neurociência abre uma nova etapa na relação entre humanos e máquinas.


O Brain-IT ainda não permite que a mente humana seja lida, mas mostra que uma parte da linguagem cerebral pode começar a ser traduzida. O trabalho do Instituto Weizmann representa um passo importante rumo a uma nova geração de tecnologias onde a inteligência artificial não apenas interpreta imagens criadas por humanos, mas também aquelas que nascem dentro da nossa própria percepção.


A fronteira entre cérebro e máquina está começando a diminuir lentamente, e os próximos anos podem revelar até onde essa união entre neurociência e inteligência artificial pode chegar.

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